Especial Opinião

 

A opinião desta semana é de Sérgio Ripardo, da Livraria da Folha. O comentário de Ripardo foi publicado no site da Folha em 03/08/2010.

Livrarias demoram a sair do armário e deixam de "esconder" estante GLS

SÉRGIO RIPARDO, da Livraria da Folha - 03/08/2010

02/11/2011 17:13

O mercado livreiro demorou a sair do armário. Antes, achar um título sobre temas de interesse dos homossexuais era mais difícil do que agulha em palheiro. Nos países ricos e liberais, como Holanda e França, até que se esbarrava com facilidade em livrarias especializadas, com estantes fartas de livros sobre questões gays.
 
No Brasil, iniciativas semelhantes não vingaram. No começo da década, em São Paulo, havia a Futuro Infinito, nos Jardins, aberta no final da década de 1990, mas não sobreviveu. Com a maior visibilidade do público GLS no espaço público, a coisa começou a mudar, e grandes livrarias passaram a incluir obras desse nicho em seus catálogos, embora evitando, na maioria dos casos, uma exposição relevante em suas estantes principais, talvez numa atitude defensiva ou por avaliações moralistas de que "se é livro gay, só pode ser pornografia". Leitores interessados no tema precisam adivinhar onde "se escondem" livros dessa categoria.

 

Com o "boom" do comércio eletrônico nos últimos anos, após o fatídico estouro da "bolha da internet" em 2000, e o aperfeiçoamento dos sistemas de segurança para transações on-line, o internauta passou a confiar mais, impulsionando as compras pela web. Além da praticidade de receber o pacote em casa, há ainda a questão da inibição e privacidade: hoje, ninguém precisa ficar na fila da livraria, acanhado, com um kama sutra na mão ou o livro da bunda ou do pênis. Isso ajuda a explicar, por exemplo, por que algumas obras figuram nas listas de mais vendidos de livrarias on-line, mas nunca aparecem nos levantamentos de lojas físicas.
 
Nesta terça-feira, por exemplo, esgotou o livro "A Experiência Homossexual", um manual de uma terapeuta sobre conflitos envolvendo gays, lésbicas e bissexuais. O assunto ganha dimensão relevante com avanços obtidos pelo movimento GLS, como a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo na Argentina e a permissão de incluir parceiro gay como dependente na declaração do Imposto de Renda no Brasil.
 
A fiscalização dos internautas também contribui para esse novo momento. Em seu livro "Vai Fundo!", o guru das mídias sociais Gary Vaynerchuk, que figurou na lista de best-sellers do "New York Times" e do "Wall Street Journal", cita o sufoco enfrentado pela gigante Amazon com sua estante GLS.
 
Por um "erro de catalogação", a lendária livraria on-line retirou de seu ranking de vendagem e da página principal de pesquisa milhares de livros, muitos dos quais continham temas homossexuais, provocando uma avalanche de críticas entre internautas, narra o autor ("A Amazon se defendeu das acusações de censura por meio do que o New York Times chamou de 'fúria de tweets'").
 
A necessidade cada vez maior de informações sérias e confiáveis sobre o assunto torna a estante GLS um das mais procuradas, forçando o mercado livreiro a oferecer opções de leitura para um público que não tolera mais nem o preconceito nem a invisibilidade.